Acervo · A Gazeta Esportiva · 12 de abril de 1976
A vitória foi do Karatê
Em abril de 1976, A Gazeta Esportiva dedicou uma página inteira ao VIII Campeonato Paulista de Karatê, disputado entre as cinco principais associações do Estado já sob a recém-criada Federação Paulista de Karatê.
A Butoku-kai, academia do Mestre Taketo Okuda, venceu por equipes e ocupou os quatro primeiros lugares individuais. O 4º colocado foi Carlos Rocha, hoje instrutor chefe do Mushinkan, descrito pelo jornal como “um karateísta raçudo” e “um atleta promissor”.
Transcrição
Texto transcrito do original, mantendo a grafia da época. Corrigimos apenas erros evidentes de digitação.
Na disputa entre as cinco principais associações paulistas de karatê, a vitória foi do karatê que consolidou, efetivamente, sua união, através da Federação Paulista de Karatê.
Uma elogiável organização e um ambiente de seriedade notável entre os concorrentes resultaram num sucesso total. A presença do público foi maciça e o certame decorreu sem maiores incidentes. Vencedora por equipe e até o 4.º lugar na disputa individual, a Butoku-kai deu mostras de um karatê moderno, eficiente e forte.
As regras da competição foram as mesmas da “Federation of all Japan Karatê-Dô Organizations” (FAJKO), que são também as normas da “World Union of Karatê-Dô Organizations” (WUKO), traduzidas e adotadas pela Confederação Brasileira de Pugilismo, destinadas a reger todas as disputas de karatê no país.
Participou efetivamente desta competição o professor Yasutaka Tanaka, que veio especialmente do Rio de Janeiro para o campeonato. Atuou brilhantemente na arbitragem e orientou os demais árbitros e juízes laterais, quanto à aplicação de penalidades, no sentido de padronizar os critérios.
“Juro solenemente...
...competir com lealdade, respeitando assim, as normas do karatê para o engrandecimento do esporte nacional” — foi o juramento prestado pelos atletas. Foi dado, assim, início à competição, por equipes, do Paulista de Karatê, defrontando-se as escolas Shorin-ryu e Shitoryu. [trecho ilegível no original] com o atleta Shito. Seguiram-se ao primeiro confronto as lutas que decidiram a vitória, nesta primeira fase, da Shorin: Ivan Martins (da Seishin, que entrou em substituição ao atleta Ricardo de Oliveira, que torceu o joelho) e Eduardo Sho (aluno de Evans Lee) obtiveram uma bonita vitória.
Na segunda rodada de equipes participaram as escolas Wadôkai (prof. Buyo) e a Goju-kai (do prof. Castanho). Sérgio (Wadô), com golpes ágeis e firmes, surpreendeu a todos, derrotando Saoka (Goju), conhecido por ser bastante técnico. No segundo confronto, a Wadô lutou com Marco Antonio, da Goju, que no Campeonato Paulista do ano passado, usou a faixa preta, recentemente estava usando a faixa branca e neste campeonato participou com a faixa roxa.
Ao nosso ver esse procedimento não só é incorreto, como é um desrespeito ao mestre que gradua o atleta. Marco Antonio, no decorrer das competições, demonstrou um estranho comportamento, torcendo euforicamente, aos gritos, nos limites da área de combate. É compreensível que o público, leigo, se exalte aos gritos, mas para um praticante legítimo de karatê, cremos que não é o mais adequado.
Após a vitória da equipe de Wadô-kai, confrontaram-se a Butoku-kai (que obteve uma vitória preliminarmente, no sorteio das chaves) e a Shorin-ryu.
Apesar de notarmos acentuadas diferenças na técnica de combate entre as duas equipes, a supremacia técnica e física da Butoku foi notória. Osório Prudente e Ricardo D’Ellia (Zelão), foram os primeiros a disputarem. Ricardo, portador de uma envergadura impressionante, bastante agressivo, ganhou plausivamente. Na segunda luta, Rodrigo (aluno de Sérgio Yanaguizawa) deu uma exibição clara do que é a técnica clássica do karatê, derrotando Carlos Rocha, um adversário de grande porte.
Outra luta notável foi a de Adauto Martins, da Shorin, que apesar de apresentar um karatê bastante clássico, foi derrotado, mostrando que o karatê de competição não é o mesmo de há alguns anos. Porém, sem sombra de dúvidas, [trecho ilegível no original] entre as equipes Shorin e Godju. Apesar de tecnicamente inferior, a Goju-kai foi a vitoriosa nesta rodada.
Concluindo...
A honra ao mérito. A Butoku-kai, com seus qualificados karateístas, obteve a primeira colocação. No segundo posto ficou a Wadô-kai, em terceiro a Goju-kai, a Shorin-ryu, em quarto e na quinta colocação a Shito-ryu, que voltou para São José do Rio Preto, com seus 2 ônibus fretados, e a sua animada torcida de 100 componentes, não muito satisfeita com os resultados.
Ficou evidenciada a superioridade dos atletas da Butoku-kai, mas, e os motivos? — Não é difícil de se compreender o que ocorreu se lembrarmos que o karatê praticado, em quase todo o Brasil, é um karatê que nos foi trazido há cerca de 20 ou 15 anos.
Exemplos claros deste fenômeno encontramos tanto no nosso judô como no beisebol. Motivado pelo isolamento a que foram submetidos os mestres, que para aqui vieram, perderam o contato com o grande centro de desenvolvimento desta modalidade. Pratica-se, ainda, e em quase todos os centros de instrução brasileiros de karatê, um karatê bonito, clássico e tradicional. Um karatê estilista, de posturas corretas e aprofundadas.
Já, no caso da Nihon Karate Kyokai, ou seja, da Butoku, não ocorre o mesmo. A presença de Taketo Okuda colocou os atletas daquela escola em contacto com as inovações japonesas. Novas técnicas foram introduzidas, praticando-se um karatê específico de competição. É lógico que, além disso, é necessário ponderar que a presença de Enio Ricardo e Antonio Gomes foi decisiva para a vitória, porém só a orientação adequada levou-os a isto.
A Butoku-kai ganhou. E vai continuar ganhando enquanto as demais escolas não praticarem um karatê mais esporte do que de arte.
Engatinhando
“Engatinhando” foi a palavra usada pelo prof. Sérgio Yanaguisawa, da Shorin-ryu, referindo-se à arbitragem no karatê. E, de fato, é muito discutível o sistema de arbitragem no karatê. Não achamos fácil esquematizar normas para competições de karatê, mas não se pode negar que é deficiente, no momento atual, a nossa arbitragem.
Causou estranheza geral a não desclassificação de Antonio Gomes quando este atleta, num “jo-dan oizuqui”, arrancou um dente de seu adversário, Ivan Martins. De fato, se analisarmos o que diz a norma tradicional de competição, Antonio estaria praticamente desclassificado. Mas as regras atuais vão além, e o prof. Tanaka, convincentemente, explica: “Se o golpe fosse desferido em condições normais de luta, seria um caso claro de desclassificação. Porém, no momento do golpe os dois adversários atacavam, ocorrendo o que chamamos de ‘choque’, e neste caso, não só Antonio esticou o braço, como Ivan foi em direção ao golpe, havendo culpa bilateral. Mesmo assim, Antonio levaria um ‘chui’ (advertência, um ponto negativo), mas Ivan Martins não quis continuar a disputa.”
Ivan, porém, não desistiu, o que houve foi um mal entendido, na hora em que Tanaka perguntou-lhe se dava para continuar e Ivan respondeu-lhe que “não” tinha problema. Em meio ao vozerio da multidão, Tanaka entendeu mal e a vitória foi para as mãos de Antonio Gomes, o que de uma forma ou de outra, fatalmente, viria a acontecer.
Outro problema na arbitragem ocorreu com o professor Taketoshi Kawamura, que permitiu que dois atletas, indisciplinados, descontrolados e totalmente desconhecedores dos princípios da ética deste esporte, atracaram-se em violenta luta corporal, agarrando-se, sem dar atenção ou respeito aos apelos do árbitro central que os tentou apartar. O professor Taketoshi permitiu os faltantes continuassem a disputa, como se nada houvesse acontecido, dando um exemplo do que não se deve fazer.
Na maioria das vezes, o que funciona num árbitro não é o conhecimento das regras, mas sim, o bom senso com que ele as aplica. Isto ficou claro na excelente atuação de Yasutaka Tanaka e de Yasuyuki Sasaki, que com suas experiências e presença de espírito foram tão justos quanto é possível a um ser humano normal. Porém, o mesmo não se pode dizer do professor Ito, que usou de ponderações bastante discutíveis para as suas decisões.
Porém, de uma maneira geral, podemos elogiar este campeonato paulista, que em relação ao do ano passado, teve um fenomenal progresso. O presidente da Federação Paulista de Karatê, general Henrique Palmeiro D’Avilla, presente a este certame afirmou: “Nesta nova fase de nosso karatê, em que este maravilhoso esporte constituiu a sua federação própria, criando concretas condições de sobrevivência, poderemos promover acontecimentos como este, de técnica e habilidade”. O general expressou também que este, o VIII Campeonato Paulista, pode e deve ser considerado como o I Campeonato de uma nova série, que será a da federação.
Outra presença notável neste campeonato, foi a do professor Yoshihide Shinzato, que participou no quadro de arbitragem, como sexto juiz, um elemento que dá o voto de Minerva. Este grande professor, presidente da União Shorin-ryu, é um dos responsáveis pela difusão deste esporte em nosso país. Após o certame paulista, Shinzato e sua equipe dirigiram-se a Joinvile, onde participaram do Campeonato Santa-catarinense de Karatê.
E os kata?
Justificando que a diferença dos estilos não permitiria uma padronização de critérios para o julgamento desta modalidade de competição, não houve disputa de kata.
Um erro ao nosso ver, pois sem o incentivo da prática do kata, fatalmente, teremos um declínio, no que diz respeito à técnica. O kata é essencial, pois como diz o professor Sasaki, “só o kata cultiva o espírito”. O kata é quem dá a postura, o equilíbrio e a firmeza, em potencial. Renegar o kata é abrir caminho para a prática de um karatê sem arte, pobre e resumido”.
Esperamos que no próximo paulista de karatê, possamos contar com este importante item, fazendo parte da competição.
Campeões, sem dúvida
Como se esperava, e não era de difícil previsão, novamente o título foi para as mãos de Enio Vezzuli. Bicampeão paulista, lutou, vigorosamente, pelo título e ele foi seu, sem dúvida nenhuma. Ricardo D’Ellia Ortiz, vice-campeão, com efeito, derrotado por Enio, porém não sem dificuldade. Antonio Gomes, vice-campeão no ano passado, desceu, agora, para o terceiro lugar, cedendo a segunda colocação para seu amigo Ricardo.
O 4.º lugar foi para mais um aluno de Taketo Okuda, Carlos Rocha, um karateísta “raçudo”, que nos pareceu um atleta promissor, com boa potencialidade a ser desenvolvida.
Legendas das fotos
- Como 6.º juiz, Yoshihide Shinzato participou do quadro de arbitragem.
- Eis a equipe vencedora do VIII Campeonato Paulista de Karatê. De pé, os quatro atletas que se sagraram campeões, também, na disputa individual. A partir da esquerda: Carlos Rocha, 4.º lugar; Zelão, 2.º lugar; Enio Vezzuli, 1.º lugar; e Antonio Gomes, 3.º lugar.
- O presidente da Federação Paulista de Karatê, general Henrique Palmeiro D’Ávila, um entusiasta dos esportes.
- O professor Taketo Okuda, colhendo os resultados e o professor Mario Seki, principal organizador do certame.
- Yasutaka Tanaka, representante da Confederação Brasileira de Pugilismo, veio do Rio, colaborou e foi homenageado.
Notas da transcrição
- O recorte original foi colado em partes, e duas linhas ficaram encobertas na emenda. Elas aparecem marcadas como [trecho ilegível no original].
Fonte: A Gazeta Esportiva, 3º caderno, página 33, 12 de abril de 1976.
Recorte do acervo pessoal do Sensei Carlos Rocha. Os direitos do texto e das imagens pertencem aos seus autores e à publicação original.
A mesma linhagem do Mestre Taketo Okuda, hoje no Mushinkan, na Vila Mariana.
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