Acervo · A Gazeta Esportiva · 16 de maio de 1978
Wado destrona NKK no Paulista de Karatê
Carlão, duplamente campeão
Em maio de 1978, Carlos Rocha, o “Carlão”, conquistou no mesmo Campeonato Paulista os títulos individuais de kata e de kumite. Foi o primeiro ano em que o kata foi disputado oficialmente.
A reportagem de Márcio Omar Chaer descreve as cinco lutas do campeão, a vitória da Wadô sobre a NKK na disputa por equipes e a convocação de Carlão para a seletiva do 3º Campeonato Pan-Americano.
Transcrição
Texto transcrito do original, mantendo a grafia da época. Corrigimos apenas erros evidentes de digitação.
Ano que vem, no Rio Grande do Sul, será disputado o 10.º Campeonato Brasileiro de Karatê. Pela décima vez nosso Estado tentará obter o título máximo do karatê nacional. O que até hoje não conseguiu.
Mas como? Como é que São Paulo, onde há mais tempo se pratica a modalidade (daqui que foram importados os precursores do karatê em todos os Estados brasileiros), onde, o número de praticantes é maior (bem maior) que a soma do número de praticantes de todos os demais Estados juntos, ainda não tem um título de campeão?
É claro que não existe uma só razão para tamanho paradoxo. Mas, se formos apontar a maior, é fácil: a desorganização. Dos 10 campeonatos oficiais, apenas 4 foram disputados pelas principais escolas do Estado. Os demais foram disputados apenas pela Nihon Karate Kyokai. Em outras palavras, o potencial da modalidade nunca foi aproveitado devidamente. Em 1975, um ano após a fundação oficiosa da FPK, afinal tivemos um certame com cinco diferentes linhas técnicas. Foi o começo de uma era. A diferença da NKK então, era monstruosa. Além da equipe campeã, seus atletas (todos os sete) ocupavam do 1.º ao 7.º posto. Domingo passado, a hegemonia NKK sofreu um forte abalo. Sua equipe foi vencida.
Os desdobramentos desse fato, entre outros, ainda vai dar muito o que falar. E quem vai ganhar com tudo isso é esse Estado, que começará a adquirir o tão importante “espírito de conjunto” que necessita. O mesmo espírito que levou a Wadô — campeã/78 ao pódio.
O índice técnico do Campeonato Paulista não foi algo tão maravilhoso como se pretende. Mas foi promissor. Tremendamente promissor.
Carlos Alberto Rocha, o “Carlão”, é campeão absoluto do karatê de nosso Estado. E duplamente campeão: em katá e kumitê, duas especialidades quase que impossíveis de se treinar simultaneamente, já que a primeira exige um tremendo preparo no ritmo, na contração e no “kimê”, enquanto o kumitê de competição pede um treino de velocidade, descontração e improviso.
Portando o número 10, anteriormente usado por Ennio Vezzuli, Carlos provou que é mesmo “o sucessor natural” do grupo Ennio-Ricardo-Gomes, do qual ele participou um bom tempo.
A grande surpresa, no entanto, estava reservada para a disputa de equipes. A Wadô campeã foi algo que fez tremer as estruturas do Ginásio da Portuguesa. Por mais que fosse um fato de se prever, já que a homogeneidade da equipe Wadô estava “ao ponto”, enquanto que a Nihon Karate Kyokai além de desfalcada de seus melhores atletas (Ricardo, Ennio e Gomes) estava, mais do que indefinida, desencontrada. Impedida a Nihon, de arrebatar seu 10.º título consecutivo foi algo estrondoso. A Wadô vem participando do Paulista há 4 anos e desde que ingressou na parada vem sendo vice-campeã, perseguindo com obstinação o título principal.
A disputa na especialidade “katá”, que pela primeira vez é feita oficialmente, foi uma experiência largamente satisfatória. Os problemas de diferença de estilo não se fizeram estar como se esperava. A Nihon Karate Kyokai aqui, não deixou escapar o título, executando o Giju-shihô impecavelmente, o que lhe valeu os 7,1 pontos da vitória. A Goju-kai, com o Seiintchi foi a vice, com 6,36 pontos — apenas 0,03 à frente da terceira colocada, a Wadô, que completou 6,33 pontos. A seguir vieram a Shorin, com 6,16 e a Tanaka, com 5,9 pontos, esta última tendo estreado no Campeonato Paulista neste ano).
Individualmente, como já se disse, Carlos Rocha foi o campeão também de katá, foi vice, Ricardo Marão, com o empi e, terceiro colocado o pequeno Takeo Uchida, com o seintchi.
As lutas
Cinco lutas, cinco vitórias foi o que Carlão precisou para galgar os andares do pódio. Seu primeiro combate, contra José Roberto de Almeida resumiu-se a dois eficazes mae-gueri; Laerte Ferraz, que acabara de vencer a principal esperança da Shorin (o promissor Johannes) foi o segundo oponente de Carlos Rocha. Ambos estavam decididos, isso ficou claro no desempenho tanto de um como de outro, mas Laerte não contava com a precisão de um ura-ken de Carlos que, varando-lhe a defesa valeu ao campeão sua segunda vitória (veja bem que Carlos venceu a esse desclassificado por wazari apenas, enquanto que ao vice-campeão ele venceu por ippon. Com a repescagem certamente os lances de sorte no sorteio de chaves seriam neutralizados. Não diríamos que é o que acontece no caso, mas sem repescagem é muito fácil construir um quadro de classificações que não corresponda à realidade).
O seu terceiro confronto foi com Ademar Bezerra (que acabara de vencer o atleta Hélio Augusto Rizzon, que no Paulista de Novos acertara o rosto de duas pessoas — uma com alguma gravidade até — e pegou em cheio o rosto de Francisco Cardoso no seu primeiro combate, mostrando não só sua inabilidade técnica como sua maldade que procurava atenuar com uma forjada “cara de inocente” após o combate), a luta foi disputadíssima, terminando o tempo regulamentar empatado, já que todas as entradas de ambos resultaram em aiutchi. Na prorrogação, todavia, venceu o melhor: um perfeito guiakuzuki de esquerda de Carlão penetrou claramente em Ademar. A garra demonstrada por este último, principalmente nessa luta, lhe valeria mais tarde o “Troféu Estímulo”.
Edmundo Werner Roll, que vinha de vencer o “Tigrão” (Carlos Magalhães) da Goju, e Romic da NKK, foi o quarto derrotado de Carlos. Aqui, pôde-se constatar com clareza a ecleticidade do campeão que, praticamente, decidiu cada combate com um golpe diferente (e bem aplicado, o que é mais importante), a Werner estava reservado um mawashi-gueri em contra-ataque. E chega a luta final. O vice-campeão (de quem falaremos mais tarde), não durou tempo suficiente para que os fotógrafos regulassem suas máquinas: um mae-gueri de esquerda e um guiaku-zuqui de direita, deflagraram estrondosos aplausos da numerosa platéia ali presente. Carlos Alberto Rocha, vencedor por ippon, como convém a um autêntico campeão, diríamos.
Rui, o vice
Troféu Revelação do evento, o alto (1m82) e jovem (19 anos) Rui Hayashi Tadaharu, assim como Carlos, aluno do NKK (Y. Sasaki), foi o vice do Paulista/78. Vice também no ano passado, no Paulista de Novos, Rui tem um grande futuro pela frente alicerçado em tão bom início (ele foi graduado recentemente à faixa roxa).
Vencendo, respectivamente, Flavius Pugliese, e Noé Dias, Rui conquistou o direito de enfrentar o campeão Wadô, Carlos Martinez (que foi premiado no final do certame com uma ótima notícia — veja daqui a pouco), Rui não titubeou e passou adiante. Após seguidos aiutchi de guiaku-zuqui tchudan, Rui varia a fórmula com sucesso. Um kesame-zuqui encaixa-se perfeito em Robson Maciel. Rui, de notável envergadura e velocidade tem, parece-nos, o biotipo ideal para um competidor de karatê. Entretanto, matéria prima não é tudo, o que ficou bem claro na grande final.
As equipes
As quatro equipes disputantes Wadô, NKK, Goju e Shorin, mostraram neste ano um karatê notavelmente uniforme, com as suas variações, é claro. Muita gente continua fazendo o treino que não leva, propriamente, ao sistema de competição que adotamos. É preciso adaptar, minha gente.
Por 4 x 1, a Wadô mostrou facilidade em vencer a Goju, pela mesma contagem que a NKK derrotou a Shorin.
Após a primeira rodada, que foi mais um aquecimento, partiram as duas equipes principais para a disputa do título. O primeiro combate termina com um ponto para a NKK, que Virgílio obtém sobre Silvio Teixeira, com um mae-gueri e um guiaku-zuki. Ricardo Marão, como sói acontecer, empata, conseguindo aparar todas as investidas de Samuel Delamuta. Robson Maciel, obtem o empate contra Laerte Ferraz. A vantagem da NKK diminui com um wazari (guiaku-zuki), de Edmundo Werner sobre Ademar Bezerra, entre Carlos Martinez e Carlos Rocha travaria-se o combate final. A luta é suada. Os aiutchi se repetem até que Martinez coloca o golpe da vitória: um guiaku-zuki djodan dá à Wadô o wazari que empataria em pontos (1 x 1) mas que, venceria por 2 x 1 em número de vitórias. A Wadô exultou. Os cumprimentos efusivos das linhas técnicas presentes comoveram alguns atletas às lágrimas.
A arbitragem
Dirigidos os principais combates pelo carioca Yasutaka Tanaka, não se registraram falhas de monta no certame. Pequenos problemas como a não desclassificação de Hélio Rizzon (um atleta que confunde competir com outras coisas) e a consideração de golpes fora do ponto de equilíbrio, como os que se evidenciaram no combate entre Ademar Bezerra e Wagner dos Santos, ao que parece, são problemas típicos que não se erradicam tão logo.
Martinez, escalado
Ao final do evento, quando Yasutaka Tanaka apontou os merecedores do Troféu Estímulo e do Troféu Revelação, foi indicado também o atleta que estará no Rio de Janeiro, domingo próximo junto a Gomes, Ricardo e Carlão disputando uma vaga para o 3.º Campeonato Panamericano, no Canadá. O fato de não ter sido apontado Rui, foi justificado por Tanaka pelo fato da pouca experiência e idade do nissei para um certame internacional. Quanto ao Troféu Revelação, dado a Rui, houve quem achasse que ele caberia ao “Tigrão” da Goju, todavia, sua boa atuação já foi registrada em outros anos, não cabendo portanto o termo “revelação” no caso. Entretanto, Tanaka não lhe poupou um elogio, ao afirmar que “seu progresso é notável”.
Legendas das fotos
- De pé, a partir da esquerda, a equipe campeã paulista 1978: Laerte Ferraz, Samuel Delamuta, Sílvio Teixeira, Carlos Martinez e Edmundo Werner Roll. Agachados, Wagner Oliveira e Marcio Pugliese, os reservas.
- A partir da esquerda: o campeão de katá e kumitê Carlos Alberto Rocha, o vice Rui Hayashi Tadaharu, o terceiro colocado Robson Maciel e o Troféu Estímulo, Ademar Bezerra.
- Dois ataques, duas esquivas. Carlão (de pé), no entrevero com Carlos Martinez (agora também convocado para a eliminatória do Pan), decidindo a disputa por equipes.
- O campeão, Carlos Rocha desferindo ágil mawashi-gueri no combate com José Roberto de Almeida.
- Eis a NKK, vice em kumitê e campeã em katá: de pé a partir da E. — Yasuhara (técnico), Osvaldo Oliveira (da equipe de katá), Virgílio, Carlão (katá e kumitê), Robson Maciel, Rui Tadaharu. Ajoelhados: Ricardo Marão (katá e kumitê), Ademar Bezerra, Paulo Storti e Wladimir Romic.
Notas da transcrição
- A foto original da equipe NKK, do acervo pessoal do Sensei, é do mesmo momento registrado pelo jornal. A identificação dos atletas segue a legenda publicada na Gazeta.
Fonte: A Gazeta Esportiva, Página 15, 16 de maio de 1978.
Recorte do acervo pessoal do Sensei Carlos Rocha. Os direitos do texto e das imagens pertencem aos seus autores e à publicação original.
A mesma linhagem do Mestre Taketo Okuda, hoje no Mushinkan, na Vila Mariana.
Mais do acervo
A vitória foi do Karatê
O VIII Campeonato Paulista de Karatê, vencido pela Butoku-kai, com Carlos Rocha em 4º lugar.
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