Acervo · Kiai · Edição nº 38
Mae-Geri: a arma letal do karatê
A pedido da revista Kiai, o Sensei Carlos Rocha escreveu e demonstrou, em fotos, a execução do Mae-Geri, o chute frontal do karatê.
O texto divide o aprendizado em quatro etapas, apresenta as variações Kizami-Geri, Mae-Geri e Oi-Geri e defende o treino exaustivo como caminho da arte marcial.
Transcrição
Texto transcrito do original, mantendo a grafia da época. Corrigimos apenas erros evidentes de digitação.
Sem a menor dúvida o karatê é hoje, a modalidade que ocupa o maior espaço em nossas edições, e a pedido de nossos milhares de leitores, voltamos a publicar matérias técnicas sobre a modalidade. Longe de tentar ensinar algo novo, a professores e praticantes estamos com essa iniciativa, buscando apenas mostrar aspectos técnicos e formas distintas de aplicação de cada golpe.
Para atender nossos leitores, convidamos o professor Carlos Rocha, um praticante acima da média, que busca sempre descobrir e extrair o máximo possível do aprendizado e da prática do karatê-dô.
O Mae-Geri, como qualquer outra técnica de arte marcial é extremamente simples de ser entendido, porém para adentrar no verdadeiro conhecimento é necessário o treinamento de uma vida.
O primeiro passo importante para se “conhecer” profundamente uma técnica de arte marcial é ter “shoshin”, mente de um eterno aprendiz, um papel em branco no qual se possam inscrever os conhecimentos móveis dos segredos da arte marcial escolhida, neste caso o karatê.
Ao se praticar diariamente o Mae-Geri e suas variações, surgirão muitas dúvidas, dificuldades na sua aplicação, até que esta técnica se torne natural e intuitiva.
Podemos constatar esta dificuldade, assistindo às competições de hoje onde raramente esta técnica é usada, quando o karatê é encarado como um esporte competitivo, onde a preocupação é vencer o adversário. O Mae-Geri é uma técnica arriscada, onde é necessário um espírito de guerreiro e não de competidor. O guerreiro é aquele que está sempre tentando vencer a si mesmo, abandonando sempre o conhecido, o seguro, para penetrar no desconhecido, no arriscado, em última instância, no vazio.
Quando o Mae-Geri se tornar natural e intuitivo é necessário treiná-lo no kumitê. O karatê dispõe do Kihon-Ippon Kumitê e do Jiu-Ippon Kumitê, para o treinamento do Mae-Geri.
Enfim, o Mae-Geri, ou o karatê como um todo deve ser treinado exaustivamente, além dos limites do corpo, pois ao se ultrapassar os limites do corpo, adentrados ao conhecimento das forças espirituais, que são verdadeiros objetivos da verdadeira arte marcial, o de restabelecer nossa ligação com o universo, nos ajudando a concretizar nosso incrível potencial e a sentir a alegria de ser, Oss!
O Mae-Geri é um chute frontal, que pode ser aplicado partindo-se de várias posições ou bases características do karatê (kokutsu, Nekoashi, etc.) porém a mais apropriada e eficiente é partindo-se do Zenkutsu.
O Mae-Geri é uma técnica de chute usado em várias outras artes marciais, mas talvez o karatê é o que mais aprimorou a arte deste chute.
Para aprendê-lo corretamente passaremos a apresentar as várias etapas da execução deste chute.
1ª etapa
Fique em pé (pés juntos) e flexione somente os tornozelos e joelhos, deixando o tronco na posição vertical em relação ao solo. Estas flexões do joelho e tornozelo também definem a altura do quadril em relação ao solo, quando da aplicação do Mae-Geri.
2ª etapa
Levante uma das pernas, elevando e flexionando o máximo possível o joelho da perna que você levantou. Observe que a perna que ficou no solo permaneça na posição (flexionada) da 1ª etapa, evitando assim levantar o quadril em relação ao solo; ao levantar a perna, prepare o pé levantando os dedos para chutar com o kochi do pé.
3ª etapa
Projete a parte inferior da perna a frente para o alto o mais longe possível, projetando também o quadril a frente, sem dobrar o tronco (ponto importante). Observe que ao chutar o pé de base não gire para o lado fazendo escapar a força do quadril. O pé ao atingir o alvo deve estar com os dedos levantados (kochi). Após o chute volte a flexionar a perna, mantendo a altura do joelho, antes de voltar à posição inicial.
Importante: A repetição deste fundamento deve ser praticado exaustivamente para que o corpo aprenda a executá-lo com perfeição.
4ª etapa
Aqui começa praticamente a execução do Mae-Geri. Fique agora na posição Zenkutsu e a partir desta posição pratique as etapas 1, 2 e 3.
Ao executar o Mae-Geri observe que o chute deve ser penetrante. Mantenha o tronco reto evitando projetá-lo para trás. Procure chutar o mais longe possível fortalecendo assim a perna de base. Não levante o quadril e transfira o peso do corpo ao chute. O Mae-Geri é um golpe apoiado nos músculos dos glúteos e abdominais. Não gire o pé de base, para não escapar a força do quadril. Ao chutar longe, além de fortalecer a perna de base, você aprende a bascular o quadril, sem dobrar o tronco, ou projetá-lo excessivamente para trás. Não mude nunca a altura do quadril em relação ao solo, durante a execução do chute.
As variações do chute frontal
O chute frontal Geri pode ser dividido basicamente em:
1 - Kizami-Geri: chute usado a partir da perna da frente.
2 - Mae-Geri: chute usado a partir da perna de trás.
3 - Oi-Geri: chute usado a partir da perna de trás com o deslocamento de um passo à frente.
Notas da transcrição
- As páginas digitalizadas não trazem o mês e o ano da edição. Por isso a data aparece só como edição nº 38.
Fonte: Kiai, Ano VII, nº 38, páginas 22 a 26, edição nº 38.
Recorte do acervo pessoal do Sensei Carlos Rocha. Os direitos do texto e das imagens pertencem aos seus autores e à publicação original.
A mesma linhagem do Mestre Taketo Okuda, hoje no Mushinkan, na Vila Mariana.
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